Mobilidade da população

Mobilidade da população

 

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Os fluxos migratórios nacionais e internacionais (Pág. 52-77)

Tipos de migrações

Causas das migrações

Consequências das migrações

Grandes ciclos migratórios internacionais

Características dos fluxos migratórios atuais

Fatores atrativos e repulsivos que influenciam as migrações

As migrações em Portugal

Características dos emigrantes portugueses

A imigração portuguesa

A mobilidade da população refere-se à deslocação humana entre áreas geográficas (cidades, países, regiões, continentes). Desde sempre que o Homem se movimenta no espaço procurando condições favoráveis à sua sobrevivência. Se inicialmente esta busca dependia, principalmente, de fatores naturais, atualmente as deslocações de população são essencialmente motivadas pelas desigualdades socioeconómicas entre as regiões de partida e as regiões de chegada.

A população pode deslocar-se por razões turísticas, de estudo, de negócios ou mesmo para trabalhar, como, por exemplo, a deslocação diária entre a residência e o local de trabalho. Todavia, quando esta deslocação é de carácter temporário ou definitivo/permanente, resultando numa mudança de residência, estas deslocações são denominadas migrações (muitas vezes estas deslocações implicam ainda a adoção de um novo estilo de vida, como por exemplo, a adoção de uma nova língua ou moeda).

A Organização das Nações Unidas (ONU) estimou que o número de migrantes representava em 2010 cerca de 214 milhões de pessoas, correspondendo a cerca de 3,1% da população mundial (Figura 1). Este valor continuou a aumentar e, em 2019, o número de migrantes internacionais alcançou 272 milhões de pessoas, um aumento de mais de 50 milhões desde 2010. Atualmente, os migrantes somam 3,5% da população global.

Evolução do número de migrantes desde 1960 a 2010.
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Figura 1: Evolução do número de migrantes desde 1960 a 2010.

Tipos de migrações:

As migrações adotam diferentes classificações de acordo com os espaços que envolvem, a duração dos movimentos, a vontade dos migrantes e a sua relação com a lei (Figura 2).

Tipos de migrações.

Figura 2: Tipos de migrações.

Quando ao espaço

- Externas

 

As pessoas deslocam-se para fora do país de origem, apresentando duas formas: a emigração e a imigração. Se este movimento se efetuar entre países/regiões dentro do mesmo continente estamos perante uma migração intracontinental (intra = dentro); se o movimento se efetuar entre países/regiões de continentes diferentes estamos perante uma migração intercontinental (inter = entre) (Figura 3).

Exemplos de migrações intracontinenteias e intercontinentais.
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Figura 3: Exemplos de migrações intracontinenteias e intercontinentais.

- Internas

 

As pessoas deslocam-se de uma região para outra mas dentro do mesmo país. Neste tipo de migrações são muito distintas as situações dos Países Desenvolvidos[Economia; Política] Conjunto de países que passaram pelo desenvolvimento da indústria, cuja população ativa se insere maioritariamente no setor secundário e no setor terciário. (PD) e dos Países Em Desenvolvimento[Economia; Política] Conjunto de países que ainda não passaram por um processo de desenvolvimento industrial, ou que apenas o iniciaram a partir da segunda metade do século XX, pelo que ainda apresentam uma percentagem muito elevada da população a trabalhar no setor primário. (PED). Nos PD, após uma primeira fase em que se assistiu à fuga de pessoas do campo para a cidade, assiste-se, atualmente, a uma crescente corrente de pessoas que fogem da cidade para o campo – êxodo urbano. Estes movimentos são motivados pelo desenvolvimento dos transportes pois, por exemplo, permitem que as pessoas vivam no campo e continuem a trabalhar na cidade, pelo menor custo das habitações, pelo estilo de vida mais tranquilo no campo ou pelas melhores condições ambientais.

Nos PED assiste-se à fuga das pessoas do campo para a cidade – êxodo rural (Figura 4). Estes movimentos são motivados pelas diferenças salariais (geralmente os salários são superiores nas cidades), pelo excesso de mão de obra existente no campo (fruto do crescimento populacional) ou pelas melhores oportunidades sociais ou culturais existentes nas cidades.

Aos movimentos que são efetuados diariamente entre a residência/habitação e o local de trabalho/estudo, e vice-versa, dá-se o nome de movimentos pendulares (Figura 5).

Abandono nas áreas rurais em detrimento das áreas urbanas.Ida diária e regresso de alunos para a escola.
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Figura 4 e 5: Abandono nas áreas rurais em detrimento das áreas urbanas (êxodo rural). Ida diária e regresso de alunos para a escola (movimentos pendulares).

Quando à duração

- Definitivas ou permanentes

 

As pessoas deslocam-se para outro local durante um período de tempo superior a um ano (ou mesmo para sempre), com o objetivo de aí formar residência (Figura 6). As razões podem ser muito variadas, mas, regra geral, são motivadas por questões laborais ou escolares ou ainda pelas guerras e as más condições de vida em geral.

- Temporárias

As pessoas permanecem na área de destino um curto período de tempo, inferior a um ano, tendo a intenção de regressar ao seu local de origem. As migrações temporárias podem ainda ser consideradas migrações sazonais, ou seja, próprias de uma estação do ano, quando estas se realizam em épocas específicas do ano (nomeadamente quando uma família se deslocam para áreas balneares/praias para aí passarem férias (motivação turística); ou quando as pessoas, por exemplo, se deslocam temporariamente para a apanha da fruta (motivação laboral) (Figura 7).

Chegada de emigrantes portugueses à Gare de Austerlitz em 1965.Imigrantes na apanha da maçã em Marrocos.
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Figura 6 e 7: Chegada de emigrantes portugueses à Gare de Austerlitz em 1965. Paris, França (migração definitiva). Imigrantes na apanha da maçã em Marrocos (migração temporária sazonal com motivação laboral).

Quando à tomada de decisão

- Voluntárias ou livres

Movimentos associados ao fator económico (busca de melhores salários) ou à realização profissional, surge por vontade própria, por livre iniciativa da população (Figura 8).

- Forçadas

Por razões de ordem religiosa ou política (por exemplo a perseguição de minorias étnicas), guerras ou catástrofes naturais (sismos, tsunamis, furacões, inundações), a população pode ser obrigada a deslocar-se para outras áreas (Figura 9).

Partida de emigrantes portugueses no Aeroporto Francisco Sá Carneiro.Fuga de refugiados Sírios em 2014.
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Figura 8 e 9: Partida de emigrantes portugueses no Aeroporto Francisco Sá Carneiro. Porto (migração voluntária). Fuga de refugiados Sírios em 2014. Turquia (migração forçada).

Quando à relação com a lei

- Legais ou documentadas

Ocorre quando o migrante tem autorização de entrada e/ou permanência no país/região de chegada.

- Ilegais, indocumentadas ou clandestinas

Por vezes, pode ocorrer a chegada de migrantes a um país/região que não respeite as formalidades legais. Neste caso trata-se de uma migração clandestina ou ilegal, ou seja, o migrante não tem autorização de entrada e/ou permanência no país de chegada.

Causas das migrações:

As migrações são causadas por uma grande diversidade de fatores (Figura 10). Estes fatores originam movimentos populacionais das áreas repulsivas para as áreas atrativas. Na atualidade, os movimentos migratórios mais importantes têm origem nas regiões menos desenvolvidas, mais pobres e que apresentam um elevado crescimento demográfico e têm como destino as áreas mais atrativas tais como as regiões mais desenvolvidas, mais ricas, mais industrializadas e onde a pressão demográfica é menor.

Causas das migrações.

Figura 10: Causas das migrações.

Causas naturais

Estas migrações realizam-se devido à ocorrência de catástrofes naturais como os sismos, as erupções vulcânicas, as inundações, as secas, os tsunamis ou condições climáticas adversas (Figura 11).

Causas económicas

Nas áreas de partida não há, muitas vezes, harmonia entre o crescimento demográfico e o aumento de recursos (como por exemplo, o aumento da produção agrícola para alimentar o crescente aumento da população ou o aumento do número de postos de trabalho) pelo que a população está associada a situações de pobreza, salários baixos, desemprego ou más condições de vida em geral. Assim, a solução passa por procurar melhores condições de vida numa outra área economicamente mais desenvolvida (Figura 12).

Destruição causada pelo sismo ocorrido na fronteira entre o Irão e o Iraque a 12 de novembro de 2017.Habitação precária na cidade de Addis Abada, Etiópia.
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Figura 11 e 12: Destruição causada pelo sismo ocorrido na fronteira entre o Irão e o Iraque a 12 de novembro de 2017. Habitação precária na cidade de Addis Abada, Etiópia.

Causas socioculturais

No âmbito destas migrações estão motivos socioculturais como por exemplo os artistas ou investigadores que procuram cidades importantes para desenvolverem e promoverem as suas pesquisas e/ou mostrarem as suas obras. Um outro exemplo são os estudantes que optam por estudar em Universidades de renome internacional como por exemplo Cambridge no Reino Unido, Sorbonne em França, Coimbra em Portugal ou Harvard nos EUA.

Causas bélicas

Estas migrações provêm essencialmente dos PED atingidos pelos conflitos armados (guerras), lutas e/ou perseguições étnicas, tensões sociais graves ou instabilidade política onde não estão garantidos os Direitos Humanos.

Causas religiosas

As perseguições religiosas são outro exemplo de motivações para a deslocação de um povo. A intolerância religiosa manifesta-se num conjunto de ideologias e atitudes ofensivas a crenças religiosas diferentes. Em casos extremos esta intolerância dá origem a perseguições, originando a fuga forçada da população contribuindo para o aumento dos refugiados.

As peregrinações a locais religiosos como por exemplo a Cova da Iria em Fátima, a São Tiago de Compostela em Espanha, a Lourdes em França, ao Vaticano (religião cristã), ou a Meca na Arábia Saudita (religião muçulmana) é outra das causas das migrações.

Consequências das migrações:

 

As migrações têm consequências importantes para a população. Estes efeitos dos movimentos migratórios são sentidos nas áreas de partida tanto a nível demográfico como socioeconómico (Quadro 1).

Quadro 1: Consequências nas áreas de partida
Consequências demográficas
Diminuição da população absoluta e da pressão demográfica
Pode conduzir a um Saldo Migratório negativo
Diminuição da Taxa Bruta de Natalidade e de Fecundidade
Diminuição da Taxa de Crescimento Natural
Aumento da mortalidade
Envelhecimento da população
Consequências económicas
Diminuição da mão de obra dos diversos setores de atividade
Abandono dos campos agrícolas nas áreas rurais
Diminuição do desemprego
Receção de poupanças envidas pelos emigrantes (remessas)
Aumento dos salários
Diminuição do espírito empreendedor e produtividade
Consequências sociais
Enriquecimento e intercâmbio cultural
Abandono das infraestruturas e serviços públicos
Introdução de novas ideias, técnicas e hábitos
Diminuição dos encargos da Segurança Social
Retrocesso no desenvolvimento regional
Diminuição da população urbana

 

Também nas áreas de chegada se verificam consequências a nível demográfico e socioeconómico (Quadro 2).

Quadro 2: Consequências nas áreas de chegada
Consequências demográficas
Aumento da população absoluta e da pressão demográfica
Pode conduzir a um Saldo Migratório positivo
Aumento da Taxa Bruta de Natalidade e de Fecundidade
Aumento da Taxa de Crescimento Natural
Diminuição da mortalidade
Rejuvenescimento da população
Consequências económicas
Aumento da mão de obra dos diversos setores de atividade
Fragmentação e perda de direitos dos trabalhadores
Disponibilidade de mão de obra barata
Envio de poupanças para o país de origem dos migrantes
Diminuição dos salários
Aumento do espírito empreendedor e produtividade
Consequências sociais
Enriquecimento e intercâmbio cultural
Dificuldade de integração dos imigrantes
Falta de habitação e aumento dos bairros de lata
Aumento dos encargos da Segurança Social
Saturação das infraestruturas e serviços públicos
Aumento dos conflitos sociais, do racismo e da xenofobia

 

Grandes ciclos migratórios internacionais:

 
 

Pode dizer-se que, ao longo da História, as migrações internacionais contribuíram para o povoamento do Mundo e, nos tempos atuais, para o seu repovoamento já que existem, segundo a ONU, milhões de pessoas que não vivem nos seus países de origem. Neste contexto é possível identificar quatro grandes ciclos/fases migratórios/as (três deles nos últimos dois séculos), sendo que um deles pode ser subdividida em dois momentos com características totalmente diferentes.

1ª fase – Até ao século XIX

O maior período de migrações teve início no século XVI, com as colonizações portuguesa e espanhola do Novo Mundo. A América do Norte foi ocupada, principalmente, por colonos britânicos e franceses e a América do Sul e Central por colonos portugueses e espanhóis. Um outro fluxo muito importante foi a saída forçada de escravos africanos para as Américas com o intuito de trabalharem nas diversas colónias.

⇒ Áreas de partida – sobretudo continente europeu e africano

⇒ Áreas de chegada – sobretudo continente americano

2ª fase – Desde o século XIX até meados do século XX (até ao final da Segunda Guerra Mundial)

 

Elevados fluxos migratórios desde início século XIX até sensivelmente à Primeira Grande Guerra (1914-1918). O aumento muito elevado da população do continente europeu (explosão demográfica motivada pela melhoria nos cuidados de saúde e de higiene) e a precariedade (más condições de vida) da população (motivadas pela falta de emprego e/ou baixos salários devido ao desenvolvimento da indústria) motivou a saída de milhões de europeus sobretudo para a América e para a Oceânia (migração intercontinental). Esta migração foi facilitada pelo desenvolvimento dos meios de transporte, nomeadamente o desenvolvimento de navios transatlânticos (Figura 13).

Baixos fluxos migratórios entre Primeira Grande Guerra (1914-1918) e o final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). As dificuldades de navegação (ou o medo de viajar pois os navios eram, frequentemente, afundados) levaram à redução dos fluxos migratórios. Também a crise económica de 1929-1930 (que conduziu à falência de muitos bancos e empresas) levou a que muitos países recetores de migrantes restringissem a imigração, ou seja, proibissem a entrada de imigrantes.

⇒ Áreas de partida – sobretudo continente europeu

⇒ Áreas de chegada – sobretudo continente americano

RMS Titanic.
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Figura 13: RMS Titanic - Um de três transatlânticos de passageiros britânico, da Classe Olympic, construído e operado pela White Star Line.

3ª fase – Desde o final da Segunda Guerra Mundial (1945) até sensivelmente 1970

Nesta fase as principais correntes migratórias foram em direção e dentro do continente europeu (migração intracontinental) pois não só ocorrera uma elevada mortalidade da sua população, que provocara a falta de mão de obra (a maioria dos que morreram eram jovens pelo que restaram os mais idosos), como também a Europa ficou parcialmente destruída pelo que havia a necessidade da sua reconstrução.

⇒ Áreas de partida – sobretudo países do sul do continente europeu e de países do norte do continente africano

⇒ Áreas de chegada – sobretudo países da europa central e ocidental como a França ou a Alemanha

4ª fase – Diminuição dos fluxos migratórios e o surgimento de novas tendências (desde 1970 até a atualidade)

Sensivelmente entre 1970 e os finais de 1980 as migrações tiveram uma redução muito acentuada devido às diversas crises económicas motivadas pela subida muito acentuada dos preços do petróleo de 1973 e 1980 (conhecidas por Choques Petrolíferos), que conduziram ao elevado desemprego. Ppor essa razão muitos países recetores de migrantes restringiram a imigração.

 

A partir de 1990 surgiram novas tendências migratórias. Esta última grande vaga migratória, está marcada por uma grande diversidade de áreas de partida e áreas de chegada. A Europa continua a ser um dos destinos mais procurados devido ao desenvolvimento dos países da Europa ocidental e central e também devido às condições climáticas e históricas dos países sul da Europa que atraem turistas. Com o crescente desenvolvimento económico e industrial dos países do sul e leste da Ásia, estas regiões tornaram-se também grandes focos atrativos de migrantes. As atuais correntes migratórias têm proveniência, sobretudo, nos PED de África e da Ásia motivadas pelas desigualdades entre os países mais desenvolvidos e os países menos desenvolvidos (Figura 14).

⇒ Áreas de partida – sobretudo países do continente africano e asiático

⇒ Áreas de chegada – sobretudo a Europa central, Europa ocidental e Europa do sul; alguns países do sudeste asiático

Principais fluxos migratórios na atualidade.
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Figura 14: Principais fluxos migratórios na atualidade.

Características dos fluxos migratórios atuais:

No passado verificava-se sobretudo a migração de pessoas pouco qualificadas (com fracos estudos). Contudo na atualidade verifica-se uma corrente migratória muito acentuada de migrantes muito qualificados tal como por exemplo os enfermeiros portugueses que migram para o Reino Unido em busca de melhores condições de vida. Por outro lado, no passado as migrações eram efetuadas sobretudo por população jovem do sexo masculino. Na atualidade, cada vez mais se verificam as migrações efetuadas por indivíduos do sexo feminino (apesar de ainda predominarem as migrações efetuadas por indivíduos do sexo masculino) e as migrações familiares. Pode ainda salientar-se que no passado as migrações eram maioritariamente definitivas e que, na atualidade, cada vez se verificam mais migrações temporárias, motivadas pelo desenvolvimento dos transportes e consequente aumento do turismo e ainda o aumento de contratos de trabalho de curta duração.

Há atualmente Países Desenvolvidos que são, ao mesmo tempo, países de emigração e imigração.

Estes países recolhem trabalhadores de países menos desenvolvidos para desenvolver trabalhos menos qualificados (como a construção de obras públicas, a restauração ou a agricultura) e, ao mesmo tempo, perdem população qualificada devido à falta de empregos ou condições laborais pouco favoráveis. Este movimento é, normalmente, apelidado de fuga de cérebros (do inglês brain drain), ou seja, a emigração de pessoas com elevada qualificação técnica e científica.

Fatores atrativos e repulsivos que influenciam as migrações:

As migrações são condicionadas por um conjunto muito variado de fatores repulsivos que estimulam a população a deixar o seu país. Por outro lado, alguns fatores atrativos favorecem a convergência de população para os países mais desenvolvidos (Figura 15).

Fatores atrativos e repulsivos que influenciam as migrações.
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Figura 15: Fatores atrativos e repulsivos que influenciam as migrações.

As migrações em Portugal:

 
 

O nosso país sempre caracterizou por uma forte mobilidade da população. A saída de portugueses para o estrangeiro (emigração) sempre foi uma realidade (segundo dados publicados pela ONU, em 2015, mais de 2,3 milhões de emigrantes portugueses estavam espalhados pelo mundo), embora com diferentes características ao longo do tempo (Figura 16). Para melhor compreendermos a emigração portuguesa podemos dividir os fluxos migratórios por fases.

Evolução da emigração portuguesa.
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Figura 16: Evolução da emigração portuguesa.

 
 
 
 
 
 

1ª fase – Finais do século XIX até sensivelmente meados do século XX (1960)

A falta de oportunidades e a pobreza que se fazia sentir levaram a que milhões de portugueses emigrassem com destino ao continente americano (migração intercontinental). Estas migrações eram de caracter definitivo e tiveram como destinos principais o Brasil, os EUA, a Venezuela e a Argentina. A vontade de migrar para o Brasil deveu-se, sobretudo, à abolição da escravatura, que conduziu à falta de mão de obra. Também a erupção do vulcão dos Capelinhos, na Ilha do Faial, nos Açores (1957-1958), levou a que milhares de residentes no arquipélago se deslocassem para esse continente.

2ª fase – Desde 1960 até 1973

A partir dos anos 60 do século passado verificou-se um crescimento explosivo das migrações portuguesas. A Europa ocidental passa a ser o destino mais escolhido pelos portugueses para melhorarem as suas vidas (migração intracontinental). Várias economias, que apesar de afetadas diretamente pela Segunda Guerra Mundial, apresentavam condições laborais superiores às oferecidas por Portugal, necessitavam de mão de obra não especializada para a sua reconstrução. Os principais destinos foram a França, a ex. República Federal Alemã, a Suíça, o Luxemburgo ou o Reino Unido.

Contudo, os açorianos (pessoas naturais do Arquipélago dos Açores) continuaram, neste período, a preferir o continente norte americano, nomeadamente os EUA e o Canadá. Os madeirenses (pessoas naturais do Arquipélago da Madeira) continuaram a preferir o continente sul americano, nomeadamente o Brasil e a Venezuela. Fruto desta situação, entre 1960 e 1970, o Saldo Migratório traduziu-se em valores negativos.

3ª fase – Desde 1973 até a atualidade

A partir de 1973 registou-se uma diminuição da emigração portuguesa motivada sobretudo pelas crises económicas já referidas (subida muito elevada dos preços do petróleo – Choques Petrolíferos), razão pela qual muitos países recetores de migrantes restringiram a imigração com o objetivo de reduzir o desemprego da sua população. Neste período alguns países como a França ou a Alemanha pagavam mesmo indeminizações para que as pessoas regressassem aos seus países de origem.

Também a revolução de 25 de abril de 1974, que conduziu a democratização da sociedade portuguesa e ao abandono da ditadura de Salazar, o fim da Guerra Colonial Portuguesa[História; Política] Corresponde ao período de confrontos entre as Forças Armadas Portuguesas e as forças organizadas pelos movimentos de libertação das antigas colónias entre 1961 e 1974. A Revolução dos Cravos em Portugal (25 de Abril de 1974), que põe fim à ditadura do Estado Novo, permitiu que se pusesse fim a uma guerra que durava há treze anos e dar início ao processo de descolonização. (os homens já não sentiam necessidade de abandonar o país pois já não seriam obrigados a participar na guerra) ou a entrada de Portugal na Comunidade Económica Europeia (CEE) em 1986, que conduziu à abertura da economia portuguesa ao exterior e à melhoria das condições de vida da população, conduziram à diminuição da emigração portuguesa.

Sobretudo a partir de meados da década de 1990, a emigração portuguesa voltou a aumentar, tendo destinos muito diversificados dentro do continente europeu como o Reino Unido, a França, a Alemanha, a Bélgica, mas também países de outros continentes tal como por exemplo Angola ou Moçambique no continente africano, o Brasil no continente americano, ou a China no continente asiático. Este aumento deveu-se sobretudo ao fim dos condicionalismos administrativos que restringiam a saída das pessoas, como, por exemplo, a obrigatoriedade da existência de passaporte para viajar para alguns países, motivado pela assinatura do Acordo de Schengen[Política] Corresponde a uma convenção entre países europeus, assinada em 1992 em Schengen, no Luxemburgo, sobre uma política de abertura das fronteiras e livre circulação de pessoas entre os países signatários, incluindo a maioria dos países da UE e alguns países extra UE. Este acordo permite a livre circulação de pessoas dentro dos países signatários, sem a necessidade de apresentação de passaporte nas fronteiras., que estabelecera a livre circulação de pessoas (e bens) nos países signatários do acordo e devido ao desenvolvimento dos transportes e comunicações.

 
 

Na última década, Portugal foi marcado por um intenso fluxo de emigrantes, devido à recessão económica, às medidas de austeridade e ao desemprego.

Características dos emigrantes portugueses:

 

Estas diferentes fases apresentam ainda alterações no que se refere à qualificação da população migrante. No passado, a maioria dos que saíam do país não apresentavam qualificações profissionais (a maioria não tinha mais do que o 1º ou 2º ciclo de escolaridade), eram jovens e muitos eram provenientes das áreas rurais devido à economia assente na agricultura, com baixos salários, elevado desemprego e baixos níveis de vida.

Na atualidade, devido ao desemprego e falta de oportunidades, muitos portugueses, em busca de um emprego estável e bem renumerado, ou seja bem pago, optam pela emigração. Na maioria, são pessoas jovens do sexo masculino (apesar de ter aumentado muito o número de emigrantes do sexo feminino) com um elevado nível de qualificações profissionais e superiores (Figura 17).

Características do emigrante português em 1965 e 2012.
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Figura 17: Características do emigrante português em 1965 e 2012.

A imigração portuguesa:

 
 
 

A partir de meados dos anos 70 do século XX, a entrada de pessoas estrangeiras no nosso país, ou seja imigração, começou a ganhar expressão a par do regresso de muitos portugueses.

Assim, com as mudanças políticas implementadas em Portugal, nomeadamente a revolução de 25 de abril de 1974 (Portugal passou de uma ditadura para uma democracia) e a independência das colónias, muitos portugueses regressaram a Portugal, nomeadamente os que se encontravam nas ex-colónias, conhecidos por retornados[História; Política] Corresponde à designação dada aos cidadãos portugueses que, entre 1974 e 1976, após a independência das colónias em África tiveram de refugiar-se em Portugal. O regresso deste número elevado de pessoas transformou a sociedade portuguesa de uma forma profunda e muitos viveram situações dramáticas, ao nível da falta de assistência médica, emprego, habitação e muita burocracia para obtenção de documennação. e aqueles que por motivos políticos se encontravam impossibilitados de entrar no país (pois, se o fizessem, possivelmente seriam presos).

Paralelamente a estes movimentos, Portugal foi abrindo, progressivamente, as suas fronteiras aos imigrantes, sobretudo dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP – Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e recentemente a Guiné Equatorial), do Brasil e dos países da Europa central e oriental (de leste).

 

 

Assim, desde finais do século XX e início do século XXI, o incremento da imigração foi pautada pela conjuntura económica favorável materializada em grandes projetos como a construção da barragem do Alqueva (1998-2002), a Exposição Mundial (Expo-98), a Ponte Vasco da Gama (1995-1998) ou o Campeonato Europeu de Futebol (Euro-2004) (Figura 18). Nos últimos anos, a recessão económica levou a um decréscimo da procura do nosso país (no entanto o número de imigrantes continuou a aumentar) dada a melhoria das condições sociais e económicas de alguns dos países de origem dos imigrantes, o que tem motivado o seu regresso.

Evolução da população estrangeira residente em Portugal.
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Figura 18: Evolução da população estrangeira residente em Portugal.

 

Não se pode, no entanto, afirmar que ocorreu em Portugal a transição de país de emigração para país de imigração, até porque a emigração não se extinguiu, tornou-se sim mais acentuada e de carácter temporário.

 

Assim, pode afirmar-se que em 2018, a região da Grande Lisboa, pelo seu dinamismo económico e social, foi a que atraiu mais população, com mais 17,0% de migrantes que no ano anterior, perfazendo um total de 213 065 estrangeiros nesta região (Figura 19). Para além dos movimentos externos, ganharam também expressão e importância os movimentos internos e os movimentos pendulares que acabam por demonstrar o maior ou menor desenvolvimento de cada uma das regiões.

Evolução e distribuição geográfica da população estrangeira em Portugal.
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Figura 19: Evolução e distribuição geográfica da população estrangeira em Portugal.

 

Referências