Interdependência entre países com diferentes níveis de desenvolvimento

Interdependência entre espaços com diferentes níveis de desenvolvimento
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Diferentes tipos de obstáculos ao desenvolvimento
São inúmeros os obstáculos que explicam o isolamento, a pobreza e o fraco desenvolvimento em que se encontram muitos países. O fraco desenvolvimento económico, sem o qual não é possível satisfazer as necessidades de uma população, deve-se, muitas vezes, à dificuldade de pôr em prática os Direitos Humanos[Jurisprudência] Os direitos humanos são direitos inerentes a todos os seres humanos, independentemente de raça, sexo, nacionalidade, etnia, idioma, religião ou qualquer outra condição. Incluem o direito à vida e à liberdade, à liberdade de opinião e de expressão, o direito ao trabalho e à educação, entre e muitos outros.; à incapacidade de travar os sucessivos endividamentos e os consequentes pagamentos de dívida externa; à incapacidade de ter uma população com acesso à educação, saúde, habitação ou emprego; à incapacidade de intervir em caso de desastres naturais ou conflitos armados; assim como a incapacidade de controlar a natalidade ou a corrupção.
Estes obstáculos, relacionados com problemas internos[Conceito] Os obstáculos internos ao desenvolvimento relacionam-se com fatores internos graves com que os países se defrontam, por exemplo a elevada taxa de analfabetismo, o elevado crescimento demográfico, os problemas alimentares, as guerras civis ou os regimes não democráticos. ou com problemas externos[Conceito] Os obstáculos externos ao desenvolvimento advêm de fatores e situações externas, bem como interferências exercidas por outros países e/ou organizações, por exemplo a colonização, as trocas comerciais desequilibradas, o domínio económico exercido por países e empresas externas ou os interesses de grandes grupos económicos., que que ajudam a explicar o atraso no processo de desenvolvimento, resultam de fatores naturais, históricos, políticos, sociais e económicos, situações em que pesa, muitas vezes, uma herança colonial forte.

Obstáculos naturais:
 
 

Grande parte dos países menos desenvolvidos encontram-se localizados em áreas onde os solos são pouco férteis (como as zonas montanhosas ou as áreas desérticas) e nas regiões tropicais. Desta forma, a produção agrícola está muito dependente das condições naturais. Também em situações de catástrofe (secas, inundações, pragas), a destruição de culturas reduz a disponibilidade de alimentos, originando, muitas vezes, situações de subnutrição e fome. Por outro lado, a intensa desflorestação em algumas destas áreas, com o consequente desgaste, empobrecimento dos solos e a progressiva desertificação, potenciam uma maior dificuldade em produzir bens alimentares que satisfaçam a necessidade da população.


Uma população subnutrida e doente não consegue contribuir para o desenvolvimento do país.

 
A população dos Países Em Desenvolvimento (PED) também está mais vulnerável às catástrofes naturais pelo facto de não existirem meios técnicos de prevenção e/ou salvamento eficazes. Os efeitos prolongados das catástrofes naturais (terramotos, tsunamis, furacões, inundações) e a difícil reconstrução, associada a carências financeiras, podem levar à proliferação de epidemias (Figura 1).
Devastacção provocada pela passagem do furacão Irma.
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Figura 1: Devastação provocada pela passagem do furacão Irma em agosto de 2017, classificado com a categoria V. São Martinho, Caraíbas.

Principais consequências dos obstáculos naturais:

– Danos materiais, nomeadamente a destruição de infraestruturas e de vias de comunicação (habitações, escolas, hospitais, estradas, …);

– Vítimas mortais e desalojados;

– Comprometimento da salubridade[Conceito] Salubridade ou estado de salubre, são as circunstâncias convenientes ou benéficas à saúde, estando asseguradas as condições de limpeza e higiene. e da segurança alimentar[Conceito] É condição necessária para o bem-estar físico, social e mental. A impossibilidade de prover uma quantidade mínima de refeições e de alimentos ameaça todo o bem-estar e desenvolvimento humano.;

– Maior exposição das populações a doenças e proliferação de epidemias;

– Aumento das desigualdades sociais e aumento da vulnerabilidade dos Países Em Desenvolvimento.


Obstáculos históricos:
O processo de descolonização resultou na independência política dos países africanos e asiáticos. Esta situação desencadeou-se, principalmente, devido à condenação moral da prática do colonialismo pela Organização das Nações Unidas (ONU) e pelas nações africanas e asiáticas reunidas na Conferência de Bandung[História] Foi uma reunião de 29 países asiáticos e africanos em Bandung, Indonésia, em abril de 1955, com o objetivo de mapear o futuro de uma nova força política global, que visaria a promoção da cooperação económica e cultural afro-asiática, como forma de oposição ao que era considerado de neocolonialismo por parte dos Estados Unidos e da União Soviética.. Este processo não ocorreu de igual forma em todos os países (embora tenha ocorrido maioritariamente de forma pacífica) nem ao mesmo ritmo. Numa primeira fase, logo após o final da Segunda Guerra Mundial, tornaram-se independentes a maior parte dos países asiáticos. Numa segunda fase, ocorreu a descolonização da maior parte dos países africanos, desencadeada pela independência da Líbia em 1951. No caso das antigas colónias portuguesas, a independência apenas foi alcançada após 1974 (Figura 2).
Potências colonizadoras e data de independência dos países africanos.
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Figura 2: Potências colonizadoras e data de independência dos países africanos.

Durante a colonização, os países colonizados foram fornecedores de matérias-primas para a metrópole (potência colonizadora); a sua governação estava a cargo dos colonizadores; foram alvo de exclusão, marginalização e violação dos direitos humanos (escravatura); ou vivenciaram a perda da sua identidade cultural devido à imposição dos valores das suas metrópoles.
O processo de descolonização facilitou a implementação de ditaduras, a instabilidade política e social; desencadearam guerras civis entre as diferentes etnias que destruíram infraestruturas e culturas agrícolas tornando estes países mais pobres; aumentaram o seu endividamento e a incapacidade de saldar as suas dívidas externas; ou mesmo politicamente independentes continuaram economicamente dependentes das antigas metrópoles, que continuaram a controlar os meios de produção.
Assim, se a independência política foi alcançada, a dependência económica face aos Países Desenvolvidos (PD) (as suas antigas metrópoles ou os países mais industrializados) manteve-se pois as matérias-primas que exportavam não eram suficientes para suprir, ou seja ultrapassar, as necessidades de produtos industriais, daí terem que os importar. O constante endividamento e a incapacidade de saldar (pagar) as dívidas contraídas daí resultantes, dificultaram o seu desenvolvimento.

Principais consequências dos obstáculos históricos:

– Economias mantiveram uma forte dependência externa e ficaram destruturadas;

– Sociedades desarticuladas (grupos étnicos separados) e perda de identidade das populações;

– Os países enfrentaram uma forte instabilidade política (guerras civis, golpes de estado e ditaduras militares);

– Elevado crescimento demográfico e agravamento das condições de vida, dado o fraco crescimento económico e o insuficiente desenvolvimento das atividades económicas.


Obstáculos políticos:
A existência de regimes políticos ditatoriais, o desigual acesso a serviços, o desvio de capitais ou a existência de conflitos armados, são dos maiores obstáculos ao desenvolvimento.
 
 
 
Os regimes ditatoriais não são propícios ao desenvolvimento pois não há gozo de plenos direitos, como a liberdade de voto e de expressão ou ainda a violação dos Direitos Humanos (Figura 3). Estes governos são muito vulneráveis à corrupção (desvio de capitais), situação que se deve aos interesses dos grupos que estão no poder, uma vez que muitos utilizam o Estado em proveito próprio. Desta forma, também muitos investidores estrangeiros não se sentem motivados para investir nestes países, contribuindo assim, ainda mais, para o desemprego e pobreza, levando ao desigual acesso a serviços.
Criança soldado.
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Figura 3: As crianças são muitas vezes mobilizadas e ativamente envolvidas em guerras e outros conflitos armados, como esta "criança soldado". Quénia.

 
 
As guerras, para além do elevado número de feridos e vítimas mortais civis e militares, destroem infraestruturas e causam grandes fluxos (movimentos) de refugiados. Os países que vivem em estado de guerra, muitas vezes sustentada pelos próprios governos, canalizam parte da sua riqueza para a compra de armas, não investindo no desenvolvimento das atividades económicas, nem em áreas como a saúde ou educação das populações, pondo em risco gerações que poderiam contribuir para a recuperação do país. Por vezes, coexiste ainda o recrutamento de crianças para as forças armadas, as crianças-soldado[Conceito] Crianças que estão ativamente envolvidas nos exércitos, em guerras ou outros conflitos armados. (Figura 4).
Exemplos de leis contra a liberdade em alguns países do mundo.
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Figura 4: Exemplos de leis contra a liberdade em alguns países do mundo.

Principais consequências dos obstáculos políticos:

– Destruição de infraestruturas e vias de comunicação (escolas, hospitais, estradas, habitações, …);

– Vítimas mortais (soldados e civis) e desalojados;

– Gera fluxos de emigração (refugiados);

– Aumento da insegurança alimentar e social;

– Aumento das desigualdades sociais.


Obstáculos sociais:
 
Os PED são os principais responsáveis pela explosão demográfica na atualidade. A elevada Taxa de Crescimento Natural[Demografia] Diferença entre a taxa bruta de natalidade e a taxa bruta de mortalidade. (que resultam das elevadas taxas de fecundidade e natalidade e a diminuição das taxas de mortalidade e mortalidade infantil) tem provocado um forte crescimento demográfico. Os fracos níveis de escolaridade, sobretudo das mulheres, o fraco acesso a cuidados de saúde, incluindo a saúde sexual, os casamentos precoces ou a ausência de planeamento familiar[Saúde] Corresponde ao meio de proporcionar informação às pessoas que lhes permita decidir o número de filhos que querem ter e quando os querem ter. Isto implica o acesso a informação sobre métodos de contraceção e serviços de saúde apropriados que permitam a vivência da sexualidade de uma forma saudável, feliz e segura, bem como o planeamento de uma gravidez e parto nas condições mais adequadas., são também fatores responsáveis pelos níveis elevados de fecundidade. Contudo, os recursos não crescem na mesma proporção, levando a desequilíbrios e à impossibilidade de muitos Estados conseguirem satisfazer as necessidades das populações, conduzindo a situações graves de fome e de subnutrição.

O acentuado crescimento demográfico, aliado à baixa capacidade de investimento na educação e na saúde revela-se um obstáculo devido à impossibilidade de formar uma sociedade com competências para promover o desenvolvimento. Como se pode ver no gráfico seguinte, são as regiões menos desenvolvidas que mais contribuem para o elevado crescimento populacional contrariamente ao que acontece nas regiões mais desenvolvidas, onde, em alguns casos, o crescimento é negativo.

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As doenças, as fracas condições de higiene e a fome implicam, também, importantes consequências (Figura 5). Os adultos que contraem doenças ou que apresentam má nutrição veem-se obrigados a abandonar o seu trabalho e, consequentemente, perdem os rendimentos para sustentar as suas famílias, o que leva a que os filhos abandonem a escola precocemente para trabalhar e sustentar a família, tornando-se um ciclo vicioso, já que não tendo formação/educação também não conseguirão auferir melhores salários e acabam por comprometer também o seu próprio futuro (Figura 6).
Número de enfermeiros e de camas hospitalares por cada 10 mil habitantes.
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Figura 5: Número de enfermeiros e de camas hospitalares por cada 10 mil habitantes, por regiões do mundo, 2014.

Alguns números sobre o trabalho infantil no mundo.
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Figura 6: Alguns números sobre o trabalho infantil no mundo, 2013.

Por outro lado, a população mais qualificada dos PED tende a emigrar para os PD, privando o seu país de mão de obra qualificada, essencial ao seu desenvolvimento (Figura 7).
Países com a menor despesa em educação em percentagem do PIB.
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Figura 7: Países com a menor despesa em educação em percentagem do PIB, 2014.

Nos PED, milhões de pessoas vivem ainda em habitações precárias sem o mínimo de condições ou na qual faltam infraestruturas básicas como água potável canalizada, eletricidade ou instalações sanitárias (Figura 8). Os níveis de desemprego ou os baixos rendimentos contribuem para que as famílias não tenham capacidade para construir, arrendar ou comprar uma habitação condigna, levando ao crescimento de bairros degradados. Muitas famílias constroem as suas habitações com recurso a materiais de baixo custo (terra, adobes, madeira, chapas metálicas) tornando-se estas por sua vez mais vulneráveis às catástrofes naturais e às epidemias.
Percentagem da população com acesso a uma fonte de água melhorada, a saneamento básico e a eletricidade na habitação.
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Figura 8: Percentagem da população com acesso a uma fonte de água melhorada, a saneamento básico e a eletricidade na habitação, por região do mundo, 2014.

Principais consequências dos obstáculos sociais:

– As populações vivem sem meios de subsistência, com fome, ausência de hábitos de higiene e uma elevada vulnerabilidade a inúmeras doenças;

– Os níveis de instrução das populações são reduzidos (elevadas taxas de analfabetismo da população, sobretudo feminina) conduzindo a uma inaptidão para incorporar processos produtivos inovadores e de base tecnológica, condicionando a capacidade produtiva dos meios de produção;

– A reduzida produtividade e as baixas remunerações condiciona o acesso das famílias à satisfação das necessidades básicas, contribuindo para que aumente o trabalho infantil e o abandono escolar.

Obstáculos económicos:

 
O fraco dinamismo das atividades económicas e a elevada dependência externa[Economia; Política] Corresponde à confiança em entidades externas (como credores, fornecedores, concorrentes, governos) que, direta e proporcionalmente, limitam a liberdade de escolha de uma empresa em operações económicas e estratégicas. É muito visível nos países da África Subsariana que, após a independência dos mesmos, se viram muito limitados ao nível do PIB devido às suas fracas economias. Este facto ditou, para a maioria, a continuidade das políticas instauradas durante a vigência da colonização, pois as suas exportações não eram suficientes para financiar as importações de produtos industriais dos PD. constituem também fortes entraves ao desenvolvimento. Nos PED, predominam atividades económicas tradicionais (setor primário, nomeadamente a agricultura ou as pescas) com fraco rendimento e fraca produtividade que não garantem a superação das necessidades da população.
Também a concentração das exportações num pequeno número de produtos deixa o país vulnerável às variações dos preços nos mercados internacionais. Quando ocorre uma catástrofe natural ou uma guerra que destrua ou impossibilite a sua produção/exploração, ou ainda quando ocorre uma diminuição da procura desses produtos nos mercados internacionais, agravam-se os problemas económicos (Figura 9).
Alguns países cujas exportações dependem principalmente de um produto.
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Figura 9: Alguns países cujas exportações dependem, principalmente, de um produto.

Por outro lado, os setores secundário e terciário têm um peso reduzido na economia destes países, devido a uma fraca industrialização e um comércio interno fracos, por falta de investimento, desfasamento tecnológico e baixo poder de compra. Assim, dado que as exportações consistem, sobretudo, em produtos alimentares, recursos energéticos e matérias-primas menos valorizados do que os produtos transformados dos países desenvolvidos, gera-se um grande desequilíbrio nas trocas comerciais, aumentando a dívida externa[Economia] Corresponde ao somatório de todas as dívidas de um país ao estrangeiro, sejam elas do Estado, das empresas públicas ou privadas ou dos particulares. Ou seja, é a parte da dívida de um país que foi emprestada por credores fora do país, incluindo bancos comerciais, outros governos ou instituições financeiras internacionais (como o Fundo Monetário Internacional ou o Banco Mundial. (Figura 10).
Trocas comerciais entre os Países Desenvolvidos e os Países Em Desenvolvimento.
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Figura 10: Trocas comerciais entre os Países Desenvolvidos e os Países Em Desenvolvimento.

O pagamento de elevadas dívidas externas, resultantes dos empréstimos concedidos por outros países e/ou organizações internacionais como o Fundo Monetário Internacional (FMI) ou o Banco Mundial, acrescidas de elevados juros, impossibilitam o investimento de capitais na economia, no desenvolvimento ou investimento de áreas como a saúde ou educação.

Principais consequências dos obstáculos económicos:

– Populações e recursos explorados por interesses de uma economia especulativa;

– O pagamento de dívidas e juros não permite o investimento na modernização da estrutura económica e na melhoria das condições de vida das populações (saúde, educação, …);

– As exportações estão centradas num número reduzido de produtos, provenientes do setor primário (agricultura, exploração dos recursos naturais, …), o que dificulta a fragilidade económica face aos mercados internacionais.


A influência do comércio mundial no desenvolvimento:
 
 
O comércio mundial refere-se ao conjunto de trocas comerciais entre os países, que gera, entre eles, um circuito económico de importações[Economia] Corresponde sobretudo à compra de bens e de serviços ao estrangeiro. As despesas que os turistas nacionais fazem no estrangeiro, tais como as realizadas nos hotéis, nos restaurantes ou em lazer, são consideradas importações.exportações[Economia] Corresponde sobretudo à venda de bens e de serviços ao estrangeiro. As despesas que os turistas estrangeiros fazem no país, tais como as realizadas nos hotéis, nos restaurantes ou em lazer, são consideradas exportações.. Assim, o comércio pode ser interno, quando é realizado dentro de determinado país, pelos seus agentes económicos; ou externo, quando é realizado por agentes económicos que pertencem a países distintos. A diferença entre as importações e exportações, cujo valor determina, em cada país, a sua Balança comercial[Economia] A balança comercial regista o valor dos bens e dos serviços que um país vende e compra ao estrangeiro. Na relação do país com o exterior, isto é, com o resto do mundo, o saldo da balança comercial mostra se o país exporta mais do que importa (saldo positivo ou excedente comercial) ou se importa mais do que exporta (saldo negativo ou défice comercial)., pode apresentar três situações: positiva, nula/equilibrada ou negativa (Figura 11).
Balança comercial.
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Figura 11: Balança comercial.

 
A relação entre o valor dos bens exportados e o valor dos bens importados corresponde aos Termos de troca[Economia] No comércio internacional, a expressão termos de troca designa a relação entre o valor das importações e o valor das exportações de um país num determinado período de tempo. Por exemplo, se a economia de um país só exporta maçãs e só importa laranjas, os termos de troca são simplesmente o preço das maçãs sobre o preço das laranjas. Por outras palavras, quantas laranjas se consegue comprar ao vender uma unidade de maçãs.

T. Troca = Val. Preç. Export. Val. Preç. Import. < /mrow>
. Quando o valor das exportações é superior ao das importações verifica-se uma valorização dos termos de troca que se tornam favoráveis ao país em causa. Quando a situação é inversa verifica-se uma deterioração/degradação dos termos de troca, que se torna desfavorável a esse país. Para esta degradação contribui um conjunto variado de fatores (Figura 12).
Principais causas da degradação dos termos de troca.
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Figura 12: Principais causas da degradação dos termos de troca.

Atualmente, o comércio mundial caracteriza-se de três formas:

As relações Norte-Sul: estabelecem-se fluxos comerciais entre Países Desenvolvidos e os Países Em Desenvolvimento;

As relações Norte-Norte: decorrem entre Países Desenvolvidos;

As relações Sul-Sul: entre Países Em Desenvolvimento e países menos desenvolvidos.

Os termos de troca têm sido mais desfavoráveis para os PED, principalmente os menos desenvolvidos pois estes exportam essencialmente produtos com menor valor acrescentado[Economia] Corresponde à diferença entre o valor dos bens produzidos e os custos dos bens intermédios. Isto é, a riqueza gerada na produção de um produto, descontando os valores consumidos para o obter. (ex. produtos agrícolas) ou produtos pouco transformados e importam produtos transformados com maior valor acrescentado (ex. maquinaria, tecnologia). Desta forma, os PED têm de exportar cada vez mais produtos para adquirirem, no mercado internacional, a mesma quantidade de bens. Esta situação contribui para um maior empobrecimento destes países e um maior benefício dos países desenvolvidos (Figura 13).
Exemplo da degradação dos termos de troca.
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Figura 13: Exemplo da degradação dos termos de troca.


O comércio justo e o comércio internacional:
 
 
 
O Comércio justo[Conceito] Corresponde a uma abordagem alternativa ao comércio convencional, baseada numa parceria entre produtores e comerciantes, empresas e consumidores, que procura uma maior igualdade no comércio internacional. trata-se de um movimento social e uma modalidade de comércio internacional que procura o estabelecimento de preços justos, bem como de padrões sociais e ambientais equilibrados nas cadeias produtivas, promovendo o encontro de produtores responsáveis com consumidores éticos. A ideia de um comércio justo surgiu na década de 1960, quando foi criada, na Holanda, a Fair Trade Organisatie. O primeiro produto a seguir este padrão de certificação foi o café em 1988. Todavia, este movimento rapidamente se espalhou pela Europa e hoje conta já com mais de 300 organizações em sessenta países na atual International Fair Trade Association.
O fundamento do Comércio justo é construir princípios e práticas comerciais equitativos e coerentes e garantir os direitos dos produtores e trabalhadores, especialmente dos países menos desenvolvidos. Em poucas palavras, é o comércio onde o produtor recebe remuneração justa pelo seu trabalho (Figura 14). Os seus principais princípios são:

– A sustentabilidade integral, em todas as dimensões (social, económica e ambiental), com um foco de responsabilidade compartilhada entre todos os atores envolvidos nas cadeias comerciais;

– As relações comerciais justas, solidárias e transparentes, a longo prazo que dignifique o trabalho dos seres humanos, que respeite as diversidades culturais, étnicas e de género e que fomente a sustentabilidade ambiental e entre gerações;

– A promoção e o respeito pelos Direitos Humanos, fomentando um justo reconhecimento do trabalho de trabalhadores agrícolas e artesanais.

Logótipo do comércio justo.
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Figura 14: Logótipo do comércio justo.

Consequências da globalização no comércio mundial:

 

O comércio mundial é uma consequência do desenvolvimento dos transportes e das telecomunicações que contribuíram para que o mundo “encurtasse” distâncias e fossem possíveis rápidas (e com menores custos) trocas comerciais. Este processo de globalização[Conceito] Processo dinâmico pelo qual determinados fenómenos técnicos, socioeconómicos e culturais se relacionam e se difundem por todo o planeta, envolvendo as pessoas, as empresas e os diversos governos. permitiu a abolição de algumas fronteiras nas relações comerciais, possibilitando o surgimento das empresas multinacionais/transnacionais[Economia] Corresponde a uma empresa sediada num país, onde está a empresa mãe, e que produz ou vende bens e serviços em vários países. Todas as atividades realizadas por eventuais parceiros espalhados pelo mundo são controladas pela empresa mãe. Algumas das principais características destas empresas são a sua grande dimensão, o facto de terem as suas atividades espalhadas por todo o mundo, os investimentos efetuados no estrangeiro ou a compra de licenças de exclusividade..

Estas expandem-se por todos os continentes sendo difícil definir a sua nacionalidade assim como a origem dos seus produtos, que são adquiridos em qualquer parte do mundo. As multinacionais são cada vez em maior número e geram capitais elevadíssimos, muitas vezes superiores ao PIB de muitos países, sobretudo dos PED (Figura 15).

Empresas mais valiosas do mundo.
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Figura 15: Empresas mais valiosas do mundo segundo a Kantar BrandZ.

A globalização do comércio apresenta aspetos positivos e negativos, tanto para os países mais desenvolvidos como para os menos desenvolvidos (Quadro 1).

Quadro 1: Aspetos positivos e negativos da globalização do comércio mundial.

Aspetos positivos Aspetos negativos
Aumento dos fluxos de importação e de exportação de bens Os lucros não são aplicados nos países de acolhimento
Promove a descida dos preços dos produtos Aumento descontrolado do consumo
Maior divulgação dos produtos comerciais Desrespeito pelos Direitos Humanos
Transferência de tecnologia para os países menos desenvolvidos Exploração desmedida de matérias-primas e de mão de obra barata e abundante
Desenvolvimento dos transportes e das telecomunicações Marginalização dos países que não estão preparados para os mercados internacionais
Aproximação geográfica, gerando oportunidades de negócio Proliferação dos problemas ambientais
Contribui para o crescimento económico Aumento das crises financeiras
Aspetos positivos
Aumento dos fluxos de importação e de exportação de bens
Promove a descida dos preços dos produtos
Maior divulgação dos produtos comerciais
Transferência de tecnologia para os países menos desenvolvidos
Desenvolvimento dos transportes e das telecomunicações
Aproximação geográfica, gerando oportunidades de negócio
Contribui para o crescimento económico
Aspetos negativos
Os lucros não são aplicados nos países de acolhimento
Aumento descontrolado do consumo
Desrespeito pelos Direitos Humanos
Exploração desmedida de matérias-primas e de mão de obra barata e abundante
Marginalização dos países que não estão preparados para os mercados internacionais
Proliferação dos problemas ambientais
Aumento das crises financeiras
Retrato síntese dos obstáculos económicos em Portugal:

Em Portugal, a criação de riqueza no país é muito reduzida e, consequentemente dificulta também o desenvolvimento humano. Isto deve-se, entre outros fatores, ao fraco dinamismo económico, à dificuldade das empresas portuguesas competirem com outras empresas a nível mundial, à falta de capitais, à reduzida escolaridade e formação dos portugueses ou aos salários baixos.

Em 2020, o PIB per capita contraiu 7,6% fixando-se nos 19 660 euros. As importações fixaram-se nos 67 909 milhões de euros e as exportações nos 53 786 milhões de euros, totalizando um saldo da balança comercial negativo de -14 123 milhões de euros. Face ao ano anterior as exportações de bens diminuíram 10,2% (-6 117 milhões de euros) em termos nominais. As importações de bens também decresceram 15,1% (-12 069 milhões de euros). Esta situação ficou a dever-se certamente pela crise provocada pela pandemia do Covid-19.

As relações comerciais de Portugal são preferencialmente com países da União Europeia (UE), sobretudo com a Espanha, a França, a Alemanha e o Reino Unido, fruto da inserção de grandes comunidades portuguesas nestes países mas também pela sua proximidade geográfia. As exportações para os países Intra-UE centraram-se nos 38 687 milhões de euros e as importações nos 50 898 milhões de euros. No espaço Extra-UE as exportações fixaram-se nos 15 099 e as importações nos 17 010 milhões de euros, respetivamente.

Em relação aos produtos transacionados em 2020, os combustíveis e lubrificantes, as máquinas industriais, os produtos eletrónicos, os automóveis e os produtos alimentares são o grupo de produtos mais importados.

 
 

Referências